Histórico

Um Pouco de História

No passado mais recuado, como também nos dias de hoje, o número serve de base para nossa vida; do cálculo mais simples às incríveis máquinas eletrônicas, tudo pode ser medido e devidamente estudado através dos números. O que é, no entanto, o número, este conceito universalmente empregado, às vezes de maneira tão igual e geral, que chega a tornar-se abstração?

Ninguém pode precisar ao certo as origens de quando apareceram os números, mas a misteriosa antigüidade teve cultores da Matemática que estudaram a fundo esta ciência e fizeram grandes descobertas. Um dos mais famosos matemáticos do passado foi Pitágoras, filósofo grego do século VI A.C., que racionalizou os números num sistema funcional. Mas Pitágoras achava que os números também tinham o seu lado místico, o que o ligou à magia e às filosofias esotéricas. Este filósofo deu origem a um movimento chamado pitagorismo, que considera como essencial o papel dos números na natureza. Segundo ele, “o mundo visível tem uma essência matemática”.

Na verdade, o maior mérito de Pitágoras é ter ordenado os produtos de intuição dos seus antepassados e predecessores (hebreus, fenícios, árabes, arianos e egípcios) que se serviam de um sistema numeral baseado no cálculo decimal.

Inicialmente, os povos primitivos faziam cálculos com o auxílio de cinco e, mais tarde, de dez dedos. Depois começaram a usar pedras. Operações mais complicadas exigiam um sistema de pequenas bolas de vidro ou quartzo. Pouco a pouco foram surgindo diversas técnicas matemáticas de precisão espantosa, como, por exemplo, os calendários lunares e zodiacais dos sumérios e babilônicos; os egípcios, com a construção das pirâmides, revelaram sua técnica aprimorada em matéria de arquitetura e numerologia.

Pitágoras, contudo, foi o primeiro a definir uma verdadeira metafísica do número com sua célebre fórmula: “tudo é regido por números”. Ele revelou, pela primeira vez, a importância do número como arquétipo, símbolo essencial, e sobretudo, criador das formas. Conforme o filósofo neopitagórico Nicômano, “tudo o que a natureza arranjou sistematicamente no Universo parece ter sido determinado e relacionado, em parte ou em conjunto, com o número, de acordo com a previsão e o pensamento do criador de todas as coisas; pois o modelo foi estipulado, qual esquema preliminar, pelo número já previamente existente no espírito de “deus”, criador do mundo, número – idéia puramente material sob todos os aspectos, mas que, ao mesmo tempo, forma a essência verdadeira e eterna. Assim, tal e qual num plano artístico, todas as coisas foram criadas de acordo com o número, inclusive o tempo, o movimento, os céus, os astros e todos os ciclos de todas as coisas.”

O sistema numérico pitagórico surgiu com Pitágoras, que começou a ensinar quando completara 56 anos de idade, após um período de longas viagens e de iniciações nos ministérios egípcios (em Menfis, Sáis, HeIiópolis) e órficos (na Trácia). O começo desse período, em Samos, não foi de todo feliz, pois o inesperado e rápido aumento do círculo de discípulos despertou a ira do regente daquela cidade, obrigando-o a refugiar-se no sul da Itália, onde deu prosseguimento à sua obra, fundando a Sociedade ou Fraternidade dos Pitagóricos.

É evidente que, na teoria pitagórica, o termo número era sinônimo de ritmo; com efeito, o ritmo é periodicidade que deforma, em nós, a passagem do tempo; é a experiência do fluido ordenado de um movimento. Foi constatado que são exatamente os períodos desmembrados que formam, na música, o esquema do ritmo sonoro. Por isso, no idioma grego, as palavras número e ritmo são provenientes do mesmo verbo; correr, fluir.

Para que se compreenda melhor o sistema pitagórico, é necessário conhecer-se algo da sua base matemática: os Pitagóricos, como também os chineses, haviam estipulado uma correlação entre os números pares e o princípio feminino. Em primeiro lugar, por poder o número par, por divisão, ser reproduzido, da mesma forma como, biologicamente, de uma parte, podem ser feitas duas. A mistura de combinações dos números do I – Ching, obra chinesa que data de uns 1000 anos a.C., conhecida entre nós como Livro das Transformações, é fundamentada nos dois princípios: Yang – masculino, ímpar e o Yin – feminino, passivo, par, luz e sombra, céu e terra.

Sobre toda essa simbologia esotérica os membros da seita prestavam juramento solene de jamais revelar e divulgar seu segredo, usando a fórmula de iniciação: “A corrente é a raiz da eterna natureza.” A tétraktis era identificada com a harmonia das esferas.

Dessa forma, em toda simbologia, citemos também uma passagem do hino órfico, dedicado aos números:

“Desde o palácio imaculado da Mônada até o sagrado número da tétrade, que é a verdadeira origem da mãe fecunda, apareceu aquela que é mais importante que tudo, que tudo envolve, inquebrantável, eterna, a que os deuses imortais e os homens da Terra chamam da década pura.”

A noção de que o Universo é regido pelo número foi mais tarde retomada por Platão, para quem o número e o belo constituíram os arquétipos mais importantes, sendo o belo (harmonia do cosmo) sujeito aos números que dominam o mundo orgânico e inorgânico. Nessa estética pitagórica – platônica a harmonia resulta do belo absoluto das proporções, existentes desde o princípio, e também do antagonismo dos princípios contrários, que, como na música, são resolvidos através das modulações entre as dissonâncias.

Tanto na Psicologia como na Fisiologia, Platão atribui grande importância à harmonia, capaz de resolver até mesmo as contradições da nossa alma. Várias teorias de Pitágoras foram emprestadas dos egípcios; principalmente a teoria dos acordes, refletidos pelo Universo, pelo templo e pelo homem.

Os arquitetos e os monges egípcios haviam compreendido a importância das possibilidades inerentes nos números sagrados. Assim escreve Mathila Ghyka:

“É provável que o arquiteto da Grande Pirâmide não tenha consciência de todas as propriedades geométricas que nela viriam a ser descobertas mais tarde; contudo, essas propriedades não são acidentais e, sim, decorrem organicamente da aplicação consciente da idéia primeira, contida na medida do triângulo. Assim, um conceito geométrico nítido e conciso resulta sempre num plano regulador eficiente. Na rigidez abstrata e cristalina da pirâmide existem reflexos da pulsação ‘dinâmica’, isto é, o símbolo matemático do crescimento vivo “.

Na estrutura gótica podem ser reencontrados os diagramas secretos do cálculo proporcional e da simetria, transmitidos diretamente de pai para filho ou de mestre para discípulo, diagramas esses derivados da geometria pitagórica. No início do Renascimento, pintores e arquitetos baseavam suas obras nas mesmas figuras e números, cujos segredos haviam sido guardados através de muitos séculos.

Já os gregos e romanos conheciam as sociedades herméticas de arquitetos, que sobreviveram à destruição pelos bárbaros da civilização ocidental, mantendo-se até a época das grandes abadias e das corporações bizantinas, para culminar, por fim, nas grandes fraternidades de maçons e pedreiros, submissos à grande loja da catedral de Estrasburgo.

Os mistérios ensinados no curso dos séculos eram rigorosamente velados; discípulos e confrades obedeciam ao mandamento:

“Aquilo que ouvires ou vires não será revelado a ninguém, onde quer que fores. . . guardarás segredo dos itens mais complexos da nossa ciência, pela qual és responsável perante ‘deus’ e o universo.”

A deusa Marât, deusa da medida e da igualdade, mestra, juntamente com Ísis e Thoth, das iniciações, usava como amuleto o mesmo esquadro (de Pitágoras) que pode ser visto nos túmulos dos arquitetos em Roma e Pompéia, e também sob os bustos de certos “mestres da obra” góticos, esquadro que ainda é um dos símbolos das lojas maçônicas da atualidade.

Os números são também relacionados com a kabbalah. A palavra Kabbalah significa tanto receber como transmitir. Os místicos hebreus adotaram, inicialmente dos caldeus e mais tarde dos pitagóricos, vários símbolos. Deparamos,, assim, como uma tétraktis sobre as letras do nome incomunicável de “deus” (o tetragramaton Yod – He – Vau- Ré), bem como uma década, a década sefirótica, ou “noção de ‘deus’ através dos números”. Essa “árvore” dos sefirotes – formada através dos 72 nomes de “deus”. Juntamente com as 22 letras do alfabeto hebraico – caminhos que levam a “deus” – leva-nos, via os schemoths, ou seja, o conhecimento dos nomes, e o schema (nome incomunicável), ao schema hamphorash, ain soph, o velho dos séculos ou o ser absoluto. Os dez sephiroth (singular: sephira, de saphier: contar) têm cada um, um nome e um número. o mundo material também tem 10 sephiroth, com o demônio Samael como regente. Tohu é o informe, e Bahn o vazio. O décimo dos sephiroth espirituais chama-se Malkuth, o Reinado. Na Kabbalah o número 10 possui tanta importância quanto no misticismo dos pitagóricos. Um ramo importante do efeito prático da kabbalah é a Gematria, segundo a qual o valor numérico das letras leva à revelação de importantes mistérios, encerrados nos nomes dos seres.

Os sephiroth formam o início e o princípio de tudo que é limitado. Mas, como demonstrar que existem 10 sephiroth, unidos em uma única substância De acordo com a Kabbalah, uma substância tem um poder triplo, ou seja, superior, médio e inferior. Tal poder triplo estendesse, por igual, em comprimento, largura e altura, formando, assim, o número 9. Ora, como uma substância não pode existir sem um lugar, conclui-se que o número que exprime substância mais lugar não pode ser inferior a 10.

Na Kabbalah o número 10 não é incompatível com o I (unidade) do ain soph, pois o l é a base de todos os números e o múltiplo provém da unidade, assim como o fogo, a chama, a faísca, a luz, a cor, por mais diferentes entre si, têm causa comum. Os sephiroth representam elementos, vibrações, que simbolizam aquilo que é contínuo no universo. Azuerli, o metafísico judeu, classificou os sephiroth do seguinte modo:

01. – A altura superior, pois que supera a elevação.

02. – A sabedoria, princípio do inteligível.

03. – A inteligência – que compreende o fim do mundo intelectual.

04. – O perdão.

05. – O terror.

06. – O belo; compreende o fim do mundo do sentimento. A vitalidade

07. – A vitória.

08. – A majestade.

09. – O justo fundamento do mundo.

10. – A justiça, que forma o fim do mundo do corpo.

Os sephiroth são forças provindas do ain soph, o “ponto supremo”, a noção de “deus”, o sopro desse mesmo “deus” que muitos crêem.

Esse breve passeio pelo reino da mística dos números provoca uma interrogação: Qual o remanescente simbólico dos números no mundo atual de calculadoras e máquinas eletrônicas?

O homem disciplinou os números. Ele é capa de calcular a diâmetro da curvatura do Universo que o cerca e as distâncias entre as galáxias mais longínquas. Ele sabe montar robôs que lhe capacitam transmitir seus próprios pensamentos com a velocidade da luz, e outros, que poderão mesmo ter existência própria.

Assim, ele cria novos “golems” que, um dia, talvez se voltem contra ele. Apesar de muitos segredos abstratos dos números terem sidos descobertos e aplicados no mundo material, resta um curioso dilema: a conhecida história dos macacos datilógrafos.

Se acreditarmos que a ordem, surgida do Caos, é apenas meio acaso, poderemos crer igualmente que, se uma quantidade suficiente de alfabetos de 22 letras for atirada à Terra, surgiria, por acaso, a Bíblia?

Concluímos, então, que o homem ocidental, que deformou a sabedoria em ratio, não é senão o autêntico macaco datilógrafo. Quando, no fim de sua vida, Einstein se viu tocado pelo “vazio do conceito” ele pôs a questão: “Será que os homens da Ciência possuem alma? Existirá ainda para os exploradores crepusculares do número, o que há de fantástico do número 1?” Einstein, indo até os limites máximos, tornou a encontrar a origem: o número é a forma que dá acesso ao mistério do número l e às muitas qualidades da realidade que remontam ao 1. Essa forma é igual à água que é salgada. os videntes e os sábio conheceram o gosto salgado da água do mar das origens.- e reconheceram que esse gosto e a água eram o número 1. Sua trajetória luminosa nos mostra, com segurança, que o “cálculo nos leva ao caminho” da iluminação, que a sabedoria leva à ascese e que o número domina toda a religião predominante no interior do homem.

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