Funcionamento

Não são necessários cálculos ou observação científica no jogo do Tarot: toda a sua teoria mágica apoia-se na crença de que na natureza nada é fortuito, toda a ocorrência no universo é causada por uma lei preestabelecida. Até o mais insignificante acontecimento está sujeito a esta norma fundamental. As cartas misturadas ao acaso não produzem resultados acidentais, mas um jogo de figuras ligadas magicamente ao adivinhador e ao inquiridor.

A prática do Tarot baseia-se no dom profético do homem que se manifesta através de uma condição especial, chamada clarividência pelos ocultistas e hiperestesia pelos cientistas. Não restam dúvidas de que este estado se verifica mais amiúde do que somos levados a admitir. Quem não experimentou, ainda que somente uma vez na vida, essa sensação denominada premonição? Determinado acontecimento futuro é presenciado tão distintamente, tão plasticamente, que a pessoa sabe imediatamente e com absoluta certeza que isso se verificara. E verificas-se mesmo! Há pessoas particularmente dotadas com tal presciência ou premonição, os chamados adivinhadores natos. Eles estimulam a sua sensibilidade anormal de várias maneiras: a contemplação do cristal, por exemplo, produz um estado auto-hipnótico; na verdade, qualquer objeto cintilante ou colorido, quando fitado durante um certo tempo, pode tornar-se igualmente estimulante para a imaginação. Certas pessoas clarividentes são capazes de dizer em que ponto foi encontrada a pedra que comprimem contra a fronte, chegando ainda a descrever a paisagem em que se encontrava a pedra bem como a pessoa que a recolheu e assim por diante.

A função básica das cartas do Tarot parece ser este tipo de estimulação. Ao observar atentamente as imagens de cores vivas, o adivinho provocará em si uma espécie de auto-hipnose, ou, se for menos dotado, uma concentração mental de que resulta uma profunda absorção no jogo. A virtude do Tarot consiste deste modo na criação deste estado mental ou psíquico favorável à adivinhação. As impressivas figuras do Tarot, particularmente os trunfos ou arcanos maiores, atraem-nos misteriosamente e despertam em nós imagens do nosso subconsciente. Muitas das figuras do Tarot são alegorias medievais: a Temperança, a alegoria da Força não constitui mistério para o iconologista. A roda da Fortuna, é um tema utilizado nas rosáceas românicas e poderão detectar-se outros parentescos sem grande dificuldade.

O tarot incorpora as representações simbólicas das idéias universais, como já dissemos, por trás das quais estão todos os subentendidos da mente humana; e é nesse sentido que ele contém a Doutrina Secreta, que é a percepção, por uns poucos, das verdades encerradas na consciência de todos, mesmo que elas não tenham sido claramente reconhecidas pelas pessoas comuns. A teoria diz que essa doutrina sempre existiu – e que ela surgiu na consciência de uma minoria escolhida; que foi perpetuada em segredo de uma pessoa para outra e registrada em livros secretos, como os de alquimia e os de cabala; e afirma-se que por trás da Doutrina Secreta existe uma experiência, ou uma prática, que a justifica.”

Essas são palavras do estudioso de ocultismo Arthur Edward Waite (l857-1942), que viu no jogo de tarot uma espécie de alfabeto que permite um número infinito de combinações. A linguagem do tarot é exclusivamente simbólica e, quando ele é compreendido num plano mais elevado, pode oferecer uma chave para os mistérios da existência humana e do universo onde ela se desenrola. Esse simbolismo contido no tarot faz parte das características da mente humana e acompanha o homem desde os primórdios da história da humanidade. Com essa visão do tarot, Waite alinhou-se ao lado de outros ocultistas e estudiosos que consideram esse jogo como um depositário de sabedoria humana e, portanto, acessível a um número limitado de pessoas: os iniciados. Compreendido ou não, o tarot foi ganhando difusão através dos tempos e chegou ao mundo moderno como mais um artigo da sociedade de consumo. Pessoas das mais variadas idades e profissões o utilizam. Casas comerciais, bares, conjuntos musicais, revistas etc. fazem uso de suas imagens e dos nomes de suas cartas, introduzindo-os em nosso cotidiano. Nesse emaranhado de usos e abusos fica difícil saber onde se encontram os iniciados ou, pelo menos, pessoas que buscam no tarot elementos para uma compreensão mais séria da vida presente, para a decifração do passado ou do futuro. Mas, isso talvez não seja muito importante, porque, se ele for mesmo um arcabouço de grande sabedoria, o simbolismo nele contido estará “atento”, mesmo onde é usado como meio de divertimento, para penetrar na mente das pessoas mais sensíveis aos mistérios da vida.

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